Pense num frame do filme Ida (Paweł Pawlikowski, 2013): a personagem espremida na parte de baixo, um vazio enorme em cima. Posta isso num grupo de fotógrafos e chovem comentários: “muito espaço sobrando”, “cortou a personagem”, “mal enquadrado”.
Esse “erro” está em um dos filmes poloneses mais premiados da história. E se repete o filme inteiro, de propósito. Quando o desconforto é consistente, ele vira linguagem. Todo aquele vazio em cima diz: os personagens são pequenos diante do que está acontecendo com eles. O silêncio precisa de espaço no quadro.
Regra de composição quebrada uma vez é erro. Quebrada o filme inteiro, é estilo.
Mais três coisas que o Pawlikowski faz e você pode usar amanhã:
- Arquitetura que separa. Linhas de parede e colunas no segundo plano dividindo duas pessoas no mesmo quadro. O tema do filme é solidão, e a fotografia reforça isso sem uma palavra. Na sua próxima foto de duas pessoas, olha o fundo: o cenário está unindo ou separando elas?
- Figurino é fotografia. Wanda, a personagem mais forte do filme, está sempre de roupa escura e sempre nas cenas de maior contraste. A personalidade dela foi construída com luz.
- Tire as diagonais. Ida quase não tem linha diagonal, só verticais e horizontais. Diagonal é movimento (seu corpo fica na diagonal quando levanta ou cai). Sem ela, o quadro para. O filme quer contemplação, e a geometria obedece.
Kubrick era fotógrafo antes de ser Kubrick
A primeira profissão dele: fotógrafo de jornal. Por isso assistir um filme do Kubrick é receber aula de fotografia, desde que você saiba pra onde olhar.
O famoso ponto de fuga é perspectiva renascentista pura. Um corredor, uma linha central, e o espectador é puxado pra dentro da cena. Você consegue o mesmo efeito num corredor, numa estrada, numa estação de metrô. Hoje.
E o detalhe que quase ninguém nota: as janelas azuis. Aparecem em take atrás de take, e aquela luz azul vindo de fora não tem explicação realista. Ela simboliza o subconsciente, é janela pra dentro do personagem. Pra replicar: LED azul e blackout do lado de fora da janela. Pronto, luz de Kubrick no seu ensaio.
Tem mais: os quadros nas paredes comentando o mundo interior dos personagens, a simetria obsessiva em conflito com o caos interno deles, e as ruas que esvaziam quando o medo chega (truque que o pintor De Chirico usava décadas antes).
Fotografe um ponto de fuga. Um corredor, uma estrada, uma plataforma de metrô: uma linha central que puxa quem olha pra dentro da foto.
Kat
