“Você nunca vai encontrar um artista no leito de morte desejando ter sido presidente de banco. Mas pode encontrar algum presidente de banco desejando ter sido artista.”
Essa frase é do David Hockney, que morreu em junho de 2026, aos 88 anos. E ela não sai da minha cabeça desde que eu soube.
Vocês que me acompanham sabem que antes de cada viagem eu escolho um artista pra guiar meu olhar. O Hockney eu carrego faz tempo. As piscinas azuis da Califórnia, as quatro estações de um mesmo cantinho da Normandia que ele desenhou no iPad já velho, sempre produzindo, todo dia, com a curiosidade de um estudante. Ele olhava pra qualquer coisa como se fosse a primeira vez.
“Ser artista é interpretar a vida.”
Eu sinto isso cada vez que levanto a câmera. A beleza não está na coisa, está em quem para pra ver. Já contei aqui que precisei voltar cinco vezes a Ushuaia pra entender que aquela luz que vi na primeira viagem era rara, e que eu quase deixei passar. O Hockney parece que já nascia olhando assim, com pressa nenhuma e atenção em tudo.
Eu penso em quanta gente que me lê tem uma carreira inteira de respeito e foi empurrando pra depois a vontade de criar, de fotografar, de olhar o mundo com calma. No fim, ninguém deseja ter vivido no automático.
A herança que ele me deixa é simples e difícil ao mesmo tempo: a vida inteira está aí, o tempo todo, esperando alguém que saiba olhar. E você, quantas vezes deixou pra depois a vontade de olhar de verdade?
Que essa semana a gente olhe um pouco mais devagar.
Kat
